Quem são as suas celebridades?

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Esses dias, passeando por links indicados na web, caímos num texto do Alan de Botton, filósofo e fundador da School of Life. Não somos das maiores fãs do cara, confessamos, mas esse texto em especial nos acendeu umas luzinhas.

O título do texto é Porque precisamos de celebridades melhores (Why we need better celebrities) e fala, em resumo, sobre a nossa relação com as celebridades. Segundo o Alan de Botton, julgar mal a “cultura de celebridades” é altamente irresponsável e contraproducente. Ele diz, no texto, que o impulso de procurar por modelos, admirar “heróis” é uma parte importante da natureza humana, e que, ao invés de tentar sufocar isso, o melhor é trazer luz e dar foco às pessoas que realmente “valem a pena”:

Seres humanos precisam e sempre vão procurar por modelos. Então, nós não devemos reclamar ou erradicar a “cultura de celebridades”. Precisamos melhorá-la, trazendo pessoas melhores para a consciência pública: precisamos de celebridades melhores ao invés de celebridade nenhuma.

Não vamos concordar ou discordar do cara. Achamos mesmo que daria um papo longo e bom sobre idolatria, poder, mídia, meritocracia e outras cositas más.

Mas o que o texto dele nos trouxe foi a vontade de listar os nossos ídolos. Quem, pra gente, deveria ser “celebridade”. 

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Sharon Osbourne: não

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Arnold Schwarzenegger: não também

Antes de tudo, achamos importante resignificar o conceito de celebridade. Esvaziar essa palavra da carga social que ela tem hoje, de idolatria cega, de poder, de inacessibilidade. Resgatar um pouco sua origem, que vem do latim celebritas, de famoso, celebrado

É com a ideia de pessoas que deveriam ser celebradas que a gente gostaria de seguir.

Mas afinal, o que você quer ser quando crescer? Opa, pera.

Opa, pera. Já cresceu, né?

Bateu os 30 anos e ainda navegando em mares de possibilidades e dúvidas com relação ao que fazer? É, sabemos bem.

Pra falar desse assunto, a gente tem que dar uma volta grande na vida. Pois vamos rebobinar um bocadito.

Tudo começa lá na infância, quando todos os tios e tias do mundo te perguntam: “e você, o que quer ser quando crescer?”. Como ainda dispomos de uma montanha de ludicidade aos 8 anos, contamos com uma cartada de respostas flexíveis e variadas, como astronauta, bailarina, cantor, atriz, cientista, e por aí vai. Conforme vamos sendo lapidados pela sociedade capitalista, pela influência da família tradicional e pelas escolas no mais belo modelo sociedade industrial, as respostas mudam. Aos 13, já não temos mais tantas possibilidades vivas dentro de nós. O leque de ideias se reduz, na maioria das vezes, às profissões mais padrões, reconhecidas socialmente (inclusive pelos nossos pais e parentes próximos): advogado, médico, engenheiro, e no máximo, no máximo, jornalista. Para muitos, dizer que quer ser músico aos 14 já representa uma bela afronta ao papai e uma preocupação certeira pra mamãe: “pretende ganhar dinheiro como assim, menino?”.

E assim seguimos, rumo ao vestibular e à “grande decisão de nossas vidas”, treinados para sermos “vitoriosos” dentro dessa definição de sucesso da sociedade patriarcal, que a gente nem sabe se quer se concorda e que está, geralmente, associada à noções de poder, dinheiro e reconhecimento. 

É por conta desse percurso pré estabelecido e sem sentido que acabamos, muitas vezes, nos tornando adultos que nem se quer sabem porque foram parar naquelas trilhas profissionais (que escolhemos aos 16 anos). Seguimos remando o barco, rodando a roda e, nos intervalos, entramos e saímos de “crises existenciais” ligadas, essencialmente, ao que estamos fazendo e produzindo no mundo, ao meio que estamos inseridos, às pessoas e aos ideais aos quais estamos conectados o dia todo no ambiente de trabalho.

Com que frescor estamos olhando para as coisas ao redor?

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Nós, aqui do Cinese, estamos fazendo um curso guiado pelo Fábio Rodrigues, do oLugar, projeto de transformação coletiva, chamado Cultivating Emotional Balance (CEB). O programa rola agora em agosto/setembro e foi desenvolvido originalmente pelo Paul Ekman e Alan Wallace, compreendendo um conjunto de métodos que integra conhecimentos da psicologia moderna sobre as emoções humanas e práticas contemplativas milenares para acessar e trabalhar o mundo interno. 

Cada aula foca em um dos quatro equilíbrios e traz teoria e práticas meditativas como proposta de desenvolver aquele equilíbrio específico.

No último encontro, falando sobre equilíbrio cognitivo, o Fábio trouxe à tona a base conceitual de algo que vemos rolando na prática o tempo todo no site:

Equilíbrio cognitivo tem a ver com não solidez, com fluidez, interesse e curiosidade. Tem a ver com enxergar a realidade inteira com certo frescor, ludicidade e leveza. É aprender a entender a multiplicidade da realidade: aquilo que vejo, que experiencio, só é aquilo pra mim porque acoplo uma série de interpretações, sentidos e teorias individuais. Pra outra pessoa, aquela realidade é diferente. Precisamos saber disso. É um erro cognitivo, ingenuidade, acharmos que tudo aquilo que sentimos, nossas impressões sobre algo, são qualidades inerentes ao objeto, à experiência.

Na hora, a luz acendeu. Conectamos essa noção com muita coisa bonita que tem acontecido a nossa volta. Pessoas, movimentos, ações e intervenções - todas ligadas, de algum modo, com essa ideia de enxergar pra além de visões prontas, habituais e rotineiras, reganhar o brilho, a curiosidade, a abertura e a lucidez nas coisas mais simples.

Daí nos surgiu a ideia de conectar aprendizados como esses - que ganhamos com as falas do Fábio - e a realidade presente, que vivemos no Cinese junto de pessoas incríveis. Resolvemos listar aqui projetos e movimentos lindos que usam a plataforma pra ganhar vida e se organizar:

O tipo de empresa que você quer ter fala do tipo de pessoa que você quer ser.

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Há quase um ano, aqui no Cinese, entendemos o seguinte: não somos nem seremos uma empresa tradicional. Também não somos nem seremos uma startup. Nosso caminho é outro.

Aceitamos, depois de vários mergulhos internos, que a nossa finalidade não é o lucro. Olhamos torto para a palavra escala e trucamos a ideia de crescimento rápido. Foi duro, sofrido, mas entendemos que o que estamos tentando construir é uma outra noção de empresa, pautada em valores humanos, conectada em rede, e que faça real sentido para as pessoas que trabalham aqui, do modo mais amplo possível: que seja meio hábil de florescimento delas.

É com isso tudo que o Cinese tem a ver, na essência. Ele nasceu por um descontentamento grande com como as coisas funcionam hoje: o sistema tradicional de ensino, o mercado de trabalho. Queremos fazer parte da construção de uma nova sociedade, e isso passa, certeiramente, pelo modo como trabalhamos, como direcionamos o Cinese como negócio.

Dentro desse rumo, uma das coisas mais importantes que decidimos por aqui foi que não podemos estar a serviço do Cinese, da empresa. Ela é que deve estar a nosso serviço. Pois é.

Decidimos que nos dedicaremos ao Cinese na medida que ele viabilize nossos sonhos e nos permita crescer, aprender. Ora, é o que propomos para as pessoas com a ideia de aprendizagem colaborativa, troca de conhecimento. Nada mais coerente que o mesmo valer para nós mesmos, aqui dentro.

Além de tentar seguir com isso sempre em mente, a cada decisão que tomamos, resolvemos também implementar algumas mudanças bem práticas, que nos ajudam a criar e cultivar essa cultura no dia a dia.

As coisas que a escola ensina no campo sutil

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Anna Haddad

Não sou mãe, ainda. E longe de mim querer condenar os milhões de pais que fazem o que podem (e o que não podem também) pela educação dos filhos, tentando sempre acertar.

Mas a verdade é que ando vendo muitos pais se embananando nessa jornada, na melhor das intenções.

Cuidam com afinco do que acontece dentro de casa, estabelecem princípios, tentam transmitir valores, e, ao mesmo tempo, analisam a “escola ideal” com parâmetros racionais um tanto arbitrários e insuficientes: essa pedagogia faz sentido, lá tem ótimos professores, currículo forte, aprova no vestibular, garante vagas no ensino médio das melhores escolas de São Paulo, e ainda é pertinho de casa.

Não que tudo isso não faça sentido. Acredito mesmo que a pedagogia pode fazer uma enorme diferença e que uma escola perto de casa, principalmente em cidades como São Paulo, pode dar aos pais horas preciosas com o filho depois do dia de trabalho.

Acontece que esses pais esquecem de olhar com atenção para as questões sutis - e eu ouso dizer, as mais importantes - que pairam naquele ambiente escolar. Quem está ali? Quem forma aquela comunidade? Qual é a cultura legítima transmitida, expressa ou tacitamente, naquele entorno? Quais as bases fundamentais daquelas pessoas?