Nunca ser criativo foi tão necessário.

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Guilherme Marinheiro

“Existe um artista dentro de cada um de nós”.

Essa é daquelas frases capciosas, que de tão instáveis poderiam rapidamente dividir opiniões numa conversa de amigos. Se por um lado poderia suscitar identificação e alívio na autoestima de uns, por outro poderia se tornar motivo de indignação pela injusta falta de discernimento em relação às habilidades específicas que envolvem a atividade em questão. Ah! E isso sem contar os que só achariam a frase boba, e nada mais que isso. Bom, extremismos à parte, sou desses que prefere acreditar que por trás de todo bom clichê existe uma verdade pedindo investigação.

Se nascer artista não é uma verdade absoluta, pensemos, pois, o que poderia levar uma pessoa a esse tipo de suposição. Sugiro uma outra frase: “Fulano é tão criativo, ele é um artista!”. Com todo respeito aos que lidam com suas obras de arte como verdadeiras obsessões de trabalho – e eu me tenho como exemplar da espécie – não poderia deixar de dizer que, doa a quem doer, há, sim, lógica nisso. Vejamos. Ora, se um artista trabalha criando, um artista é alguém criativo, e se ser artista é ser criativo, ser criativo, portanto, é ser artista, certo? Ou complicou?

Não, o problema é que talvez tenha simplificado demais. O fato é que, ainda que exista lógica, tal associação surge incompleta, pois esse percurso direto de raciocínio nos causa estranheza pelo que falta.

Sabemos que um artista trabalha em ato de criação, mas só criatividade não faz um artista, nos levando portanto, e finalmente, ao óbvio: a criatividade é uma potencialidade humana para além da arte e possível em qualquer outra forma de relação com o mundo.

Mais que isso. Relacionar-se com o mundo é colocar-se diante dele em estado criativo, ou seja, a criatividade está na base de como conhecemos algo.

Há séculos o modo como se dá o conhecimento instiga a curiosidade humana, mas talvez só agora estejamos chegando a uma compreensão que consiga aliar a contestável dimensão da subjetividade aos mais diversos estudos científicos. No livro “A Árvore do Conhecimento”, de Humberto Maturana e Francisco Varela, podemos percorrer os caminhos obscuros que buscam as bases biológicas da compreensão humana de forma clara e precisa, entrando em contato com aquilo que se tornou um marco no que se refere à reflexão sobre como conhecemos o mundo. No livro, os autores falam da biologia da cognição, partindo de um ponto simples: se a vida é um processo de conhecimento, para compreender a vida é necessário entender como os seres vivos conhecem o mundo. 

Desde o Renascimento perpetuou-se a ideia de que o mundo seria pré-dado em relação à experiência humana, ou seja, nosso cérebro apenas receberia passivamente as informações vindas já prontas de fora. Tal modo de pensar é denominado representacionismo e ainda hoje se faz predominante na forma como a sociedade se organiza e funciona. O que as pesquisas de Maturana e Varela propõem com originalidade é um outro olhar sobre a relação dos seres com o mundo, colocando-os em via de mão dupla, em processo dinâmico e mútuo de constante construção e modificação.

Prisões estéticas: somos nós os carcereiros

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Giovana Camargo

Pilates para secar o abdômen. Corrida para turbinar a bunda. Uma dieta low-carb que promete eliminar os quilos a mais. Gel redutor anti-celulite. Detox para o verão. Inibidores de apetite. Cremes anti-estrias. Balas de colágeno. Cinta redutora de medidas. Injeções de carbono para queimar gordura localizada.

Poderia ficar algumas horas citando invenções cosméticas e farmacêuticas criadas para entrarmos em forma e conquistarmos o tão sonhado “corpo ideal”.

Desde que me entendo por gente, lembro de ser constantemente avisada por revistas, comerciais e novelas do quão gorda e feia eu sou – e de que existem muitas possibilidades no mercado para solucionar, com rapidez e eficiência, esse meu “problema”.

Parece um exagero? Uma sugestão: pergunte para cinco mulheres de seu convívio próximo se elas estão felizes com o peso e o corpo atual, ou se estão de dieta, se já fizeram muitas, se planejam alguma, quantos quilos gostariam de perder e o que mudariam em seus corpos. Garanto que você vai se assustar com as respostas.

A maioria com quem convivo se consideram gordas ou tem alguma forte objeção estética com suas próprias figuras. E mais: acham isso completamente natural. O assustador é que são mulheres lindas – inclusive jovens e magras – convencidas de que seus corpos são errados, feios, desajustados.

Os padrões são inalcançáveis. O papel deles é o de nos manter sempre insatisfeitos, numa corrida eterna.

A existência de padrões de beleza não é nenhuma novidade. Desde muito antes da minha avó existe o ideal de corpo bonito, o rosto admirável, o conjunto da obra que todo mundo quer ter. E aí a grande questão. Quem é que cria o modelo?

Hollywood? Interesses corporativos das indústrias farmacêuticas? A “mídia”?

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Beleza e estética são construções sociais. Se modificam ao longo do tempo e de acordo com a cultura de uma determinada sociedade. Algumas décadas atrás, no Brasil, mulher rechonchuda era sinônimo de beleza e vitalidade. Hoje, as magras e gostosas ganham os holofotes. No Paquistão, Tailândia, Coréia do Sul, Hong Kong, Malásia e Índia, bonito é ser branco, com o uso de cosméticos alvejantes que brutalizam as peles. Na Mauritânia, África Ocidental, quilos a mais são sinal de status e riqueza para as mulheres.

Daí, a libertadora verdade: não existe uma entidade chamada padrão estético que sobrevive à parte de nós.

Somos nós os criadores dos padrões que tanto nos aprisionam.

O que é feminismo?

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Marília Moschkovich

A história é comum: “não sou feminista, sou feminina”, dizem muitas mulheres. Mulheres fortes, independentes, que aprenderam ao longo da vida que não devem nada a ninguém e podem cuidar da própria vida. Mulheres que se recusam a se enxergarem como inferiores ou incapazes só por serem mulheres. Que correm atrás dos sonhos, que planejam, se organizam, fazem acontecer. Mulheres bem sucedidas, no trabalho, no amor, nas amizades. Mulheres como tantas mulheres que conheço - e que vocês também conhecem -, que são verdadeiros exemplos. Que dão força a outras mulheres e acreditam que o mundo pode ser mais justo, mais igualitário. Que desejam um mundo em que nenhuma menina seja impedida de ser ou fazer o que quiser com sua vida - beijar quantas pessoas desejar, estudar o que bem entender, seguir certas carreiras, ter ou não ter filhos na hora em que achar que rola.

Mulheres como você, como eu.

É impressionante o que acontece na vida dessas mulheres quando elas conhecem outras mulheres assim. Aos poucos, compartilhando experiência e conhecimento, vão percebendo que, bom, talvez elas sejam afinal de contas feministas. Descobrem que “feminista” não é só aquela que milita, participa ativamente de um movimento ou escreve blogs por aí. Em todo seu poder interior, que encontram quando encontram outras como elas, muitas delas descobrem que desejam esse poder para outras mulheres também. Feminismo é isso aí: seja num movimento social, num blog, numa ONG ou em seu cotidiano, se orientar pela ideia de que, como você, todas as mulheres merecem a oportunidade e a possibilidade de realizar seus sonhos e viver com liberdade.

Já ouvi essa história centenas de vezes, e ela nunca deixa de me surpreender; de me emocionar; de me motivar. Pode vir de uma amiga antiga que descobre que é feminista, pode vir de um email enviado por uma leitora do meu blog que casou aos 14 anos de idade e abandonou os estudos pra cuidar do marido, e agora deseja se formar e seguir os próprios sonhos. Pode vir de uma aluna ou ex-aluna que começa, com a beleza que só os adolescentes têm, a questionar padrões sociais e sentir o peso de algumas estruturas simbólicas da nossa cultura. Não importa. A história é quase sempre essa, e é sempre incrível.

No ano de 2013, o feminismo ganhou mais espaço na mídia digital e mesmo na mídia mainstream, hegemônica.

A sensação para muita gente ainda é um pouco controversa: se em termos de direitos as mulheres são tratadas, na lei, como sujeitos dignos, cidadãs, etc., então por que o feminismo ainda existe? Será que não é um tanto ultrapassado? O que é, afinal, “feminismo”? Por que as feministas e políticas públicas falam tanto em “desigualdade de gênero”? Homem e mulher não são condições biológicas? Como isso tudo é visto no feminismo dos dias de hoje, que não precisa mais lutar por direito a voto para as mulheres? Existem homens feministas? 

Num mundo de processados, criança não aprende o que é processo

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Patrícia Grinfeld

Ouvi de uma menina beirando os 8 anos que seu sonho era fazer uma boneca, não  importava como ela fosse. Podia ser de papel, de pano, de milho, como a que fez nas férias com a prima que mora no interior do Ceará (as mesmas que sua mãe fazia na infância). Sua fala me surpreendeu e me encantou. Ela estava na contramão do desejo da maioria das meninas de sua idade por bonecas industrializadas.

Aqui, não vem ao caso o significado deste desejo, mas o episódio me fez pensar no quanto as crianças de hoje estão sendo isentas dos processos de feitura. Tudo vem pronto, processado – pela indústria ou outras pessoas.

Durante um bom tempo os brinquedos foram construídos pelas crianças, com sua participação ou pelo menos com sua presença ao lado de quem o executava. A criança tinha oportunidade de acompanhar, se não todo o processo, uma parte dele. O desejo de ter atravessava o fazer e a espera.

Isto não se limitava à confecção de brinquedos. A criança vivenciava começo, meio e fim, antes e depois, nas pequenas coisas cotidianas. Para chupar laranja era preciso descascá-la. Para comer bolo, fazê-lo. Para ter um cachorro, esperar que alguma cadela desse cria. Para morar na casa própria, era possível vê-la ganhando forma dia após dia.

Hoje, não é surpresa para ninguém uma criança não saber chupar laranja e morar no sudeste brasileiro; não saber que bolo é feito de manteiga,  farinha, ovo ou ingredientes que os substituam; não saber que cachorro mama na cadela e que para construir casa usamos tijolo, cimento e outros materiais.

Em um mundo aonde nossas necessidades e desejos vêm prontos (até o cachorro sai de vitrine!) – ou são sempre possíveis de ser realizados – as crianças estão sendo eximidas da participação nos processos das coisas mais banais da vida. O tempo é do instantâneo, do imediato, do sem espera.  Por isto mesmo, o tempo é do desprezível, do descartável, do usa e joga fora – de caixas longa vida às relações afetivas (para não dizer à própria vida).

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Sei que existe um passado que não volta mais e que a vida contemporânea está cheia de privilégios que antes não existiam – poder terminar uma relação quando se percebe que não vale a pena levá-la adiante, falar “cara a cara” com quem mora distante, ter uma doença curada, são exemplos de uma infinidade de coisas boas que a contemporaneidade tem nos permitido e que não devem ser esquecidas.

Qualquer época é regada de aspectos positivos e negativos. No entanto, penso que é primordial indagar como nossas crianças enfrentarão os desafios que a vida apresenta, se estamos mergulhados num mundo em que raramente é dado tempo de maturação; ou seja, tempo para que um processo aconteça, com todas as etapas envolvidas, inclusive a resolução de dúvidas, conflitos e o encontro de soluções.

As mulheres do meu ano.

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Anna Haddad

Hoje cedo, acordei e abri um email com a lista de mulheres inspiradoras de 2013 feita pelas meninas do Think Olga, em contraposição às listas curtas e rasas de pessoas influentes que a mídia global solta, todo o ano.

Elas bem dizem lá, sobre a lista:

"Ela nasceu de maneira informal durante um debate no grupo de discussão da Olga, o Talk Olga, e não é, nem pretende ser, definitiva. Sabemos que ela é um recorte – seja da nossa classe social, da cidade em que vivemos, da cor da nossa pele e até mesmo dos nossos interesses pessoais. Por isso mesmo, ela não pode parar. Os leitores estão convidados a acrescentarem não apenas novos nomes nos comentários, mas também novas categorias. O importante é provarmos que existem muitos trabalhos relevantes feitos por mulheres, e que eles não merecem ser ignorados.”

Cocei a mão ao ler. Deu vontade de explorar cada projeto que eu ainda não conhecia, de mandar um email para cada uma, de marcar um café com biscoitinho. Vai ficar para 2014.

Depois do breve ataque de ansiedade, outra coisa me veio. Começaram a passar pela minha cabeça as mulheres que, nesse último ano, me inspiraram e inspiraram o Cinese. Deu vontade de falar um pouco de cada uma e o que fizeram por mim, sem saber, pelo simples fato de terem cruzado o meu caminho. Aí vai:

1. Ana Thomaz: professora da técnica Alexander e mãe. Cultiva uma relação incrível de conexão com o corpo e a mente, é doula e acredita em uma educação livre dos paradigmas atuais. Me mostrou outra forma de me relacionar com as emoções, de me conectar com o meu próprio corpo. Me mostrou que dá para construir, na prática, uma outra cultura, distante do patriarcado que vivemos hoje, e que isso começa dentro de casa.

2. Erika Foureaux: Fundadora da ONG Noisinho da Silva, de design inclusivo, e mãe da Julia, da Soca e da Nina. Me mostrou uma forma diferente de se relacionar com os filhos. Uma de mais igualdade, de olhos mais abertos, atenta para ver a prole como pessoas singulares, em constante mutação. Me mostrou que filho não é só filho, é gente, um outro mundo.

3. Adelice da Silva: empregada doméstica e minha segunda mãe. Acorda às 5 da manhã 3 vezes na semana, sai de São Miguel Paulista, extremo leste de São Paulo, e enfrenta todas as formas existentes de condução para chegar em Moema, na minha casa. Aos 56 anos, e ainda que tenha começado a trabalhar muito cedo no roça, no interior da Bahia, cuida da minha casa como se fosse dela, me ajuda a preparar meu alimento como se estivesse fazendo para um filho. Me ensinou, pela forma como encara a própria vida, disposição, força e coragem para lidar com os pedregulhos no meio do caminho, e me disse, mesmo sem dizer, que quando estamos parados, as coisas não acontecem. Me colocou em movimento.

4. Giovana Camargo: abraçou, há 1 ano, o Cinese como projeto de vida. Mesmo aos 22, me ensinou gentileza, empatia, acolhimento e me apresentou uma outra forma de enxergar e abraçar o meu próprio feminino.

5. Natália Garcia: jornalista, criadora do projeto Cidade para Pessoas. Me apresentou outra forma de ver as cidades, as vias, os caminhos, e a nossa ligação com tudo isso. Mudou a minha relação com a cidade e os espaços públicos.