Olha Celso! Tem lojinha!

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Renata Velloso

Estávamos no Alaska. Após chegarmos na capital, Juneau, uma cidade acessível apenas por água e ar, pegamos um hidroavião até uma pequena pousada onde nos foi servido um salmão fresco pescado na hora. O melhor peixe que eu comi na vida. A exuberância da natureza em volta era de emocionar. Geleiras glaciais imensas rasgavam montanhas rodeadas pro florestas e água azul turquesa. Nem se eu fosse Guimarães Rosa  conseguiria descrever tanto deslumbramento.

Mas aí veio a frase do título, gritada em bom português, bem lá, naquele santuário. Sim, tinha lojinha.

Na verdade era uma barraquinha com pouco mais de um metro quadrado onde se podia comprar ursinhos de pelúcia feitos na China com o logotipo da pousada, alguns cartões postais e camisetas que poderiam estar escritas “estive num dos lugares mais maravilhosos da terra e mesmo assim gastei em tranqueira”.

Vivemos em um mundo materialista.

A experiência, por mais fantástica que seja não parece suficiente. É preciso materializar aquilo com consumo. A excitação na voz da mulher do Celso não deixava dúvidas: fazemos parte de uma sociedade que precisa “pegar” para sentir. Precisa possuir ou não é feliz.

Poesia não é literatura, é um estado mental

Renata Roquetti

Poesia. As pessoas ouvem e arrepiam: ou pensam que é bonito, mas está muito distante da realidade do dia a dia, ou pensam que é besteira de autor, de sonhador.

É comum ouvir um categórico “eu não sei”, “não conheço”, “não consigo”, quando o assunto é escrever poesia.

Mas a verdade é que dá pra andar pelas ruas, todos os dias, olhar para os lados e perceber, entender, enxergar poesia. Só tem que estar vestindo os óculos certos.

Pra mim, as coisas mudaram quando entendi que poesia era muito menos uma prática literária e muito mais um jeito de ver o mundo. De levar as coisas, de pensar e andar por aí. 

Esse jeito está ligado à abertura, presença e sensibilidade. Não a um olhar infantil, imaturo e sonhador, como todo mundo pensa. Tem a ver com empatia, atenção, flexibilidade.

E praticar poesia na rotina, na vida, nos ajuda em muita coisa. Nos ajuda a alimentar esse estado mental de fluidez.

O que se perdeu na nossa relação com a comida?

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Mariana Pellicciari

Falamos muito sobre alimentação. O tempo todo. Só que a conversa gira mais em torno de “o que” estamos comendo e não muito de “como” estamos comendo ou “quem” está fazendo a nossa comida.

Tentamos entender as funcionalidades de cada grupo alimentar e decifrar as complicadas tabelas nutricionais para decidir o que tirar do prato. Queremos eficiência, melhorar a nossa performance (de forma rápida de preferência) e pra isso terceirizamos soluções prontas. Assim, o pacotinho no supemercado que nos prometer o que “precisamos”, depois de uma análise quase técnica, vai com a gente pra casa.

Com isso vamos nos esquecendo do essencial para essa relação ser realmente saudável: comer comida de verdade, feita por pessoas e compartilhada em comunidade.

Nós somos os animais que cozinham

Cozinhar nos diferenciou de outras espécies e criou hábitos que repetimos até hoje. Por exemplo, quando o Jamie Oliver dos homo erectus começou a preparar alimentos utilizando o fogo, criamos um ritual: pra se alimentar, passou a ser preciso que um grupo se juntasse, se organizasse e dividisse tarefas, pra que o alimento ficasse pronto e fosse dividido igualmente entre todos. Assim nasceram as refeições e passamos a nos reunir pra comer.

A relação entre a evolução do preparo dos alimentos e a evolução da nossa espécie é bastante direta. Por exemplo, quando as ancestrais das panelas foram criadas, ampliamos a expectativa de vida de quem perdia os dentes no processo alimentar. Por isso, voltar a comer comida de verdade e cozinhar o próprio alimento pode ser a chave pro resgate da vida em comunidade, aumento da sustentabilidade de hábitos e relações, e melhora da nossa perspectiva de sobrevivência

Refeição como forma de criar conexões

Comer e cozinhar, por natureza são atos sociais. E hoje em dia não faltam lugares para fazermos uma boa refeição na companhia de alguém. Mas esses lugares não nos ajudam a transformar estranhos em amigos, não nos ajudam a parar, respirar, nos conectar com outros.

O foco está mais na decoração, no telão com um bom clipe ou em modinhas gastronômicas do que nas oportunidades de aprofundarmos relações. Os clientes deixam os restaurantes da mesma forma como entraram, tendo reafirmado divisões tribais existentes.

A proximidade exigida por uma refeição compartilhada como passar as travessas, os guardanapos ou até entregar o saleiro a alguém pode ser uma oportunidade de estreitar laços. Comer em conjunto pode ser um modo de celebrar a nossa conexão com o mundo e com os outros. Faz com que o ato de comer saia do automático e seja uma oportunidade pra vermos muita coisa, interna e externa, e alimentarmos também nosso senso de comunidade.

Vamos experimentar?

Pensando em tudo isso, um grupo de pessoas incríveis, ligadas à várias áreas diferentes (gastronomia, redes, comunicação, etc), se juntou pra propor experiências que valorizem as coisas sutis realmente importantes no mundo das comidas. Deram pra essas experiências o apelido carinhoso de “Cook Labs”.

A ideia é tentar resgatar um bocado o senso de comunidade, troca e conexão que geralmente gira em torno das refeições e que acabamos perdendo no meio do caminho, nesse mundo de extrema vida privada e tempo contado no relógio.

Para próximo encontro, vamos preparar em grupo uma refeição completa, pra ser compartilhada entre os participantes e servida num clima super gostoso e propício pra as trocas, conversas e encontros. Informalidade pra nos aproximar das comidas e uns dos outros, ou seja, nada de protocolos, gourmetização e essas outras coisas que vemos por ai.

Vamos?

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Dia 4 de junho, a partir das 19h30, na Rua Laboriosa, n. 89, Vila Madalena.

Inscrições aqui. :)

Se quiser saber mai sobre esse papo de comida e gente:

- Michael Pollan | Cooked: A Natural History of Transformation

- Allain de Botton | Religião para Ateus

 

Cosméticos do bem: caminhos das pedras

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 Giovana Camargo

Já falamos um pouco, aqui e aqui, sobre o paradigma atual de saúde e sobre os produtos que compramos e usamos diariamente. Mas, depois dos dois lindos encontros que organizamos em parceria com a Alva Nutricosméticos, decidimos facilitar a vida de quem quer colocar em prática todas as soluções que encontramos e sugerimos. Porque, depois da pílula vermelha, vem sempre o caminho das pedras.

Produtos de beleza e higiene são usados de forma contínua, todos os dias. Com o desenvolvimento da indústria química passamos a entrar em contato com substâncias que nunca existiram antes (não existem na natureza). E se essas substâncias não são adequadamente metabolizadas e eliminadas, acabam se acumulando em nosso corpo. É esse efeito cumulativo que nos traz riscos potenciais.

Um homem usa, em média, 6 produtos de higiene pessoal por dia, e a mulher, 12, o que significa uma exposição a cerca de 168 substâncias químicas diferentes todos os dias. Nosso corpo pode até conseguir lidar com pequenas quantidades de uma determinada toxina, mas muitas “pequenas quantidades” juntas acabam potencializando a toxicidade uma da outra, daí o efeito sinérgico.

Mas que raios de substâncias são essas e o que elas causam?

Hoje, cerca de 80.000 produtos químicos estão em uso comercial. Na indústria de cosméticos, menos de 20% desses químicos foram devidamente testados quanto à segurança para a nossa saúde. Dentre os testados, alguns são permitidos - em pequenas quantidades - mesmo demonstrando efeitos adversos. Aí vão alguns exemplos de ingredientes do mal:

Cosméticos do bem: uma luz no fim do túnel

Anna Haddad

Cremes antifrizz, hidratantes de cutículas, redutor de poros, máscaras que estimulam crescimento dos cílios, creme redutor de celulite, shampoos com vitaminas X e proteínas Y, desodorante vaginal, clareadores de axilas. E por aí vai.

Ao entrar numa farmácia, abrir uma revista feminina ou simplesmente andar na rua, somos bombardeadas por propagandas e um mundo de milhares de produtos de beleza. É maluco ver até onde a indústria cosmética chega para nos vender coisas das quais nós não precisamos realmente, e, principalmente, desconhecemos os verdadeiros efeitos.

A minha geração nasceu nesse mundo onde as mulheres são, desde pequenas, inundadas por comerciais, anúncios e mensagens de todos os tipos, de todos os lados, que dizem, quase  sempre, uma só coisa: você não é bonita e saudável o suficiente. É essa frase, aliada a uma solução em forma de produto, adquirível a um clique, e pronto.

Somos presa fácil.